Culpa

Todos me perguntam quando que vou começar a fazer uma faculdade, ou um curso técnico. Mas eu não faço ideia do que ser, qual curso escolher ou qual profissão seguir. E isso me mata. Todos os dias eu mesma me pergunto: O que você quer ser Carla? E o que você está fazendo pra isso se tornar realidade?

E todos os dias me julgo por não saber o quero. Me julgo por ser indecisa em tudo na minha vida. E fico me remoendo por dentro. Quero aprender um novo idioma e me culpo por não conseguir. Prometi ser melhor, até comentei isso aqui no blog. Mas como posso ser melhor se não consigo mudar a mim mesma? As pessoas me dizem que o primeiro passo é reconhecer que preciso mudar, e que só isso é um grande começo. Mas pra mim é muito pior saber que preciso mudar e não conseguir. E horrível saber que nunca consigo fazer as coisas diferentes, apesar de prometer isso várias vezes. Isso é devastador.

Mas as vezes eu me sinto como nesse trecho do livro: Sr Daniels (Spoiler pra quem não leu o livro ainda).

“O que eu quero ser quando crescer? Sr. D., essa parece ser uma pergunta muito pesada para alguém da minha idade. A vida é dura, e os adultos estão sempre dizendo a nós, ‘crianças’, que ela só piora à medida que o tempo passa. Tenho feito meu melhor para entender o que faz as pessoas seguirem em frente, o que as mantém tentando alcançar algo maior neste mundo. Crença? Esperança? Paixão?

“Eu sou gay, Sr. D. Nunca falei essas palavras para um professor, mas o jeito como você entrou na sala no primeiro dia de aula, com tanta coragem, me fez perceber que posso confiar em você. Você tem medo de algum segredo como eu. Então pensei em compartilhar meu segredo. Mas a minha sexualidade não deve me definir, certo? Há muito mais em mim. Gosto de trovoadas. Amo beisebol. Acho que rock é o melhor tipo de música. Tenho olhos azuis. Odeio ervilha. Meu sangue é vermelho e meu coração chora às vezes, como o seu, imagino.

“Sabe o que não consigo entender? Não consigo entender como as pessoas que deveriam nos amar incondicionalmente são as que se viram contra nós num piscar de olhos. Há pouco tempo tive que me convencer de que não foi contra mim que ela se virou, não foi a mim que ela culpou pela morte de papai, ela me ama. Sei que ama. Simplesmente não consegue compreender as diferentes formas de amor. Formas que só nós, adolescentes, podemos entender antes que o mundo da vida adulta tire a nossa magia, o nosso encanto. Ser adolescente é uma maldição e um presente ao mesmo tempo. É a idade em que contos de fadas e o Papai Noel deixam de existir, mas partes de nossos corações querem dizer: E se…

“É o momento em que você sente tudo, mas todos dizem que você está exagerando. Você, a orientação educacional e a sociedade nos atiram perguntas muito fortes às quais não temos ideia de como responder. Quem somos? Como nos vemos daqui a cinco anos? O que queremos ser? A coisa mais assustadora para mim é a escolha de uma carreira, a escolha de um caminho de vida para seguir com tão pouca idade, sendo tão ingênuos. Ninguém sabe quem é na nossa idade. Ninguém tem a mais puta ideia de onde vai estar em cinco anos. A última pergunta é minha favorita: O que queremos ser? Essa é a mais fácil.

Daniel fez uma pausa e olhou para mim, recitando a última parte da poderosa redação de Ryan.

— Vivo. Quero estar vivo, e não tenho ideia de por que, vendo como hedionda a vida é, às vezes. Talvez seja a crença, a esperança e a paixão, tudo embrulhado dentro do meu peito. Talvez meu coração esteja apenas rezando por um amanhã melhor para substituir todos os ontens de merda. Então, para responder à sua pergunta de forma muito deprimente, cheia de angústia adolescente, quero estar vivo quando crescer. Então, agora eu pergunto, Sr. D. O que você quer ser quando crescer? Porque nunca paramos de crescer, e raramente deixamos de sonhar.”

A igreja foi invadida por um silêncio que até os deuses da terra achariam desconfortável. Daniel dobrou a folha de papel e colocou-a de volta no bolso. Ele falou no microfone e deu um sorriso triste.

— Eu não sei o que quero ser quando crescer. Mas se há alguém que quero imitar quando o fizer, é o jovem que escreveu essas palavras. Não quero ter medo do resultado da vida. Quero me lembrar de respirar enquanto sorrir, e valorizar as lágrimas. Quero mergulhar em esperança e cair no amor. Quero estar vivo quando crescer, porque… nunca estive vivo em toda a minha vida. E acho que o mínimo que podemos fazer, para honrar a memória de Ryan, é começar a viver. E nos perdoar por todos os ontens de merda.

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